terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ouvi falar de uma escola... #1

Reflito sobre a educação quase que diariamente, seja no que concerne aos meus filhos, seja pelo diálogo sobre os alunos do meu marido ou mesmo pelas atitudes que vejo nas crianças que vão cruzando o meu caminho. Muito se fala sobre educação actualmente, sobre os diferentes paradigmas, sobre o descontentamento dos profissionais da área, sobre quem cai a responsabilidade de educar(pais ou professores) e sobre a falta de recursos por parte das escolas. É um assunto com "pano para mangas" e sobre o qual todos têm opinião. Como não podia deixar de ser, eu também tenho a minha que, nas entrelinhas deste blog, vou deixando transparecer.

Num dia destes ouvi falar de uma escola onde se aprende por gosto, em que os alunos chegam mais cedo e saem mais tarde por vontade própria. Nesta escola, os alunos aprendem o que querem, o que gostam, o que lhes faz sentido e não o que os outros querem ou pensam ser absolutamente necessário para eles. É uma escola não escola que não tem horários rígidos nem locais fixos e onde nenhuma matéria é mais importante que a outra. Aqui os alunos não passam o dia virados para um quadro preto (ou branco, conforme dos recursos da escola), eles são livres, brincam, costuram, cozinham, lêem, fazem contas, limpam, experimentam, cantam, correm, aprendem, por outras palavras, crescem. 

A escola menciono acima não é ficção de novela ou fruto de uma imaginação utópica, ela existe mesmo e chama-se Escola Viva Inkiri. Fica situada em Piracanca, no Brasil, sendo uma das responsáveis pela sua existência Ivana Jauregui, a qual tive o privilégio de conhecer na semana passada. Cheguei à sua apresentação quase que por acaso. Já tinha ouvido falar e visto alguns vídeos sobre esta escola e até tinha ouvido falar desta apresentação, no entanto, não tencionava ir. Fui ao desfile de porta bebés e só mesmo no final (já tinha a apresentação da Ivana começado), decidi lá dar um saltinho.
Quando cheguei (entrando de fininho, pois estava bem atrasada), vi uma mulher no auditório a conversar com um público que em silencio se deleitava a ouvir. Não deu uma palestra estruturada como a plateia esperava, simplesmente divagou por assuntos que nada e tudo tinham a ver com a escola, com o sistema onde nos inserimos.

Eu quero que os meu filhos sejam bem sucedidos!
Um dos temas focados nesta conversa foi o sucesso, afinal o que isso de ser bem sucedido? O que queremos quando dizemos que queremos que os nossos filhos sejam bem sucedidos? Na televisão um homem bem sucedido tem geralmente três coisas: dinheiro, fato e gravata e exerce (ou pelo menos tem no currículo) uma das seguintes profissões, médico, engenheiro ou advogado. No caso das mulheres, nem vos sei dizer bem de que forma a televisão representa como bem sucedida, mas tenho a certeza que não é uma mulher que colocou de lado uma promissora carreira para cuidar dos filhos, aliás, este é assunto também muito controverso que ficará para uma próxima postagem.

Pesquisei na internet o termo sucesso. Numa das definições dizia que ter sucesso é "ser feliz em algo". Bem, ter uma das profissões acima referidas não é, por si só, uma garantia de felicidade, a não ser que desejem mesmo exercer essas funções. Agora, convenhamos, nem todos nascemos para isso e não é por não atingirmos as metas dos outros que não alcançamos o dito sucesso. A Ivana na sua apresentação disse que o ex-marido queria que os filhos de ambos fossem pessoas de sucesso (isto a propósito de andarem nesta escola) e penso que ela não ambicionará o contrário, no entanto, apesar de os dois quererem o mesmo, visualizam caminhos diferentes para lá chegar. Tal como a Ivana, eu penso que o sucesso não se prende com os outros, mas sim com cada um de nós, com aquilo que nos faz felizes.

Atualmente, tanto adolescentes (aqueles que já foram dominados pelo sistema) como adultos não vivem no presente, vivem em modo stand by, digamos assim, vivem como se a vida ainda não estivesse a acontecer e estão à espera de um dia, de algo indique que a sua vida começou, mas não sabem bem qual o sinal que estão à espera. Engraçado que há alguns anos atrás, eu e o meu marido tínhamos a mania de perguntar às pessoas o que queriam fazer na reforma (sim, nós temos umas conversas muito engraçadas com os amigos :D). Escolhíamos a reforma, uma vez que, para nós, esta é um método aliciante utilizado pelos senhores com muito dinheiro para nos colocar a trabalhar muito tempo e esperar uma recompensa choruda daqui a uns anos sem fazer nenhum. Começamos a reparar que ninguém era realmente feliz com o que fazia e que optavam sempre por atividades que não conseguem executar agora como por exemplo um professor que disse que faria trabalhos de carpintaria, ou um empresário que disse querer pescar todos os dias. Vou dizer-lhes um segredo, não sei se eles sabem, mas estas atividades, embora por serem prazerosas para estas pessoas sejam consideradas lazer, também são consideradas profissões, meios de subsistência, modos de ganhar dinheiro vivendo a vida de um modo mais coerente com os seus interesses. Já Confúcio dizia algo como "escolhe uma profissão que ames e não terás de trabalhar um só dia na tua vida".

Pois, mas nas vossas cabeças, já se deve estar a ouvir o tilintar o dinheirinho seguro que eles perderiam no final do mês, mas a verdade é que as escolhas estão inerentes a cada caminho que trilhamos, logo lidar com as consequências dessas escolhas é da nossa responsabilidade. Andar a pé em vez de conduzir um topo de gama, ter roupas modestas ou andar sempre na moda, dar bastantes bens materiais aos filhos ou estar bastante tempo com eles são escolhas simples que fazemos diariamente cujas consequências temos de lidar. Atenção, não estou a julgar qualquer uma das opções, apenas quero fazer refletir sobre se estamos num bom caminho para ser bem sucedidos, se ser bem sucedidos tem necessariamente a ver com uma carteira recheada.
A propósito deste assunto, ouvi uma vez alguém contar a seguinte história (já não sei quem foi) que sendo verdadeira ou não, não interessa, fica a mensagem: certa vez, um general de Napoleão disse-lhe que era necessário mais dinheiro para financiar a guerra, para aumentar as suas tropas. Napoleão respondeu-lhe que não se preocupasse que havia um grupo da sociedade que lhes daria sempre esse dinheiro, a classe média. Porquê? Perguntam vocês. Porque é uma parcela da sociedade que trabalha muito durante a sua vida toda, pois sonham ser ricos e têm um grande medo de ser pobres.

A propósito de escolhas, ontem no Telejornal Madeira deu uma reportagem sobre Ana Moura, jogadora de badminton, atualmente formada em medicina, que gostaria de regressar à alta competição, conciliando a prática desta modalidade com a sua profissão. Engraçado que, na impossibilidade de conciliação, em nenhum dos momentos se pôs a hipótese de deixar a medicina mas sim o desporto. Não vem aqui ao caso o que ela deve escolher ou não, isso é com ela, com o seu caminho, mas sim a pressão da sociedade numa determinada direção.

Para terminar, gostava só de acrescentar que é importante nos valorizarmos enquanto pessoas por aquilo que somos, pelas nossas habilidades e que a escola poderia simplesmente respeitar, oferecer, em vez de disciplinas fixas, os mecanismos necessários para desenvolvermos as nossas potencialidades, sejam elas quais forem.

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