terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A escola como reprodutor social


Na verdade, a maior parte de nós já tem consciência de que a escola não oferece oportunidades iguais a todos, que se por um lado tem o objetivo de igualar, de fazer com que todos tenham um nível mínimo de educação (escolaridade obrigatória), por outro enaltece as disciplinas que só alguns têm "jeito", digamos assim. Existe uma discriminação notória quando, por exemplo, a classificação da disciplina de educação física não conta para a média para concorrer ao Ensino Superior, nem mesmo para o curso de Educação Física, quando existe uma desigualdade tão grande na carga horária atribuída a cada disciplina, quando a disciplina de música termina no 8.º ano ou mesmo quando os cursos tecnológicos são uma oferta a ponderar após uma segunda ou terceira retenção, pois afinal são os alunos que não conseguem acompanhar o currículo dito normal que vão para esses cursos ou alternativas do género.

Há alguns anos atrás, ouvi algo que nunca tinha pensado e quando isso acontece tiro sempre algum tempo para refletir sobre o assunto. Na disciplina de Sociologia da Educação, na universidade, abordámos o papel da escola como reprodutor social. Sim, já sabemos que a escola tenta em modo de “produção em massa” produzir indivíduos com um determinado perfil, os homens e mulheres de amanhã como se costuma dizer, gentes com determinadas caraterísticas que formarão a sociedade no futuro. O que aparenta ter um propósito nobre fica um bocado pelo caminho quando observamos aquilo que a educação pretende perpetuar. Se a sociedade do futuro é o reflexo do que se vê hoje em dia na maioria nas salas de aula, e atenção que não pretendo com isto criticar os docentes que, muitas vezes tentam dar o melhor de si, não podemos almejar grandes mudanças. Como representação de uma micro sociedade, na maior parte das salas de aula deste país estão indivíduos a olhar continuamente para um líder, indivíduos estes que geralmente não pensam, não têm de o fazer, alguém o faz por eles, apenas executam. Indivíduos que um dia já foram (ou ainda são) crianças alegres que adoravam aprender e descobrir mais que tudo mas que, aos poucos, a cada dia que vão sendo continuamente lapidados e se habituam à passividade.

Engraçado, na escola, raramente se valoriza o que é novo. Nos meus tempos de secundário tinha muitas dificuldades em interpretar poemas (penso que quase todo o mundo tem), não obstante, sendo a escrita uma arte e como tal captando em nós emoções diferentes (não é essa a beleza de apreciar arte?), não é ridículos que tenhamos de sentir todos o mesmo ao analisar um poema só porque sim, só porque os especialistas que tanto estudaram sabem exatamente ao que o autor se referia? Porque não poderíamos aproveitar um poema como arte que ele é, só pelo prazer de o ler, de sentir aquilo que ele vibra em nós, apenas pelo prazer de ler?

Pensamos que a escola nasceu para trazer igualdade, o que em certos contextos não deixa de ser verdade, no entanto, o modo como ela é construída não é acessível a todos, não é por acaso que os alunos com pais com maior sucesso académico têm filhos também com maior sucesso académico, não é por acaso que, geralmente famílias com maior poder económico obtêm melhores resultados (e se não obtiverem, não faz mal, há sempre as escolas privadas ou os explicadores para cobrir as faltas). Definitivamente, mesmo com um único professor, a mesma sala de aula, o mesmo mobiliário e as mesmas aulas, não, a escola não é igual para todos e está feita para que as elites continuem a ter sucesso mantendo os seus cargos na sociedade (ai do filho de médico que não seja médico, ou algo do género), mantendo sempre as mesmas famílias no poder. Neste sentido, acontece o mesmo com a classe trabalhadora, isto é, produz mais membros com características semelhantes ao grupo de origem.

Sim, não vou negar, a escola também permite mobilidade social e, de vez em quando lá se ouve falar de um ou outro caso de sucesso, de alguém que não tinha muitos recursos e conseguiu um bom cargo ou alcançou uma prestigiada posição social, mas o que interessa é que, no geral, a escola está feita para manter o que já existe.

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