segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ser mãe a tempo inteiro

Nunca gostei desta designação de uma mãe, como se todas as outras não o fossem também a tempo inteiro, como se quando vão para os seus trabalhos, deixassem de ser mães e passassem a ser outra coisa qualquer.
Desde pequena que queria ser esta coisa de mãe a tempo inteiro, talvez porque a minha mãe sempre trabalhou fora de casa, então quando eu chegava a casa da escola, ela não estava lá à minha espera com um lanchinho acabado de fazer. Vá lá, parece que estou a reduzir uma mulher a apenas mãe com lanchinhos acabados de fazer, mas enquanto filha senti falta disso. Pensava nisso muitas vezes e quando fosse grande, queria fazer diferente, mas sempre tive vergonha de o afirmar em voz alta.


Lembro-me de brincar muito, tive essa oportunidade quando as escolas não eram ainda a tempo inteiro por estas bandas. Como menina, brincava normalmente com bonecas, no entanto não eram com aquelas bem sucedidas ou que apresentavam uma aparência mais crescida, era quase sempre com bebés. Também nunca imaginava uma daquelas profissões comummente relacionadas com o sucesso, uma posição superior na sociedade ou mesmo fama, pelo contrário, sempre fui extremamente reservada. Brincava quase sempre de cientista, sim cientista (sempre gostei de ciências), mas não era isso que me motivava, utilizava quase sempre essa profissão porque todos os dias podia descobrir coisas novas e o meu chefe, contente com a minha prestação, mandava-me para casa todos os dias mais cedo para poder cuidar dos meus filhos :)

Mas voltando à vergonha, vergonha porquê? Bem, porque ser mãe não é considerado uma profissão e isso não se coaduna com os padrões da sociedade vigente, de tal modo que a profissão de dona de casa praticamente deixou de existir e passamos todos à categoria dos desempregados. Pensava sempre em ser algo como advogada, médica, se calhar um pouco influenciada pelas séries da TV, e era isso que transmitia aos outros. É muito interessante a forma como a sociedade evoluí, fazem com que uma mulher tenha vergonha de querer se dedicar aos filhos e, pelo contrário, queira produzir para o país, trabalhar para os outros. Releve-se que não estou criticando quem o faz por querer ou por necessidade, apenas não entendo as críticas às tais "mães a tempo inteiro" que o fazem porque de facto é nisso que se sentem realizadas.

Uma vez, estava eu ainda no início da primeira gravidez, um amigo do meu pai perguntou-me se já estava a trabalhar, ao que eu respondi, meia a "medo" que não, que eu e o meu marido tínhamos decidido que eu ficaria em casa a cuidar da bebé. Não é que o homem me surpreendeu com a sua resposta! Qualquer coisa como "fazes bem, eu adorava chegar a casa e sentir o cheiro da minha mãe a fazer o almoço, dela estar sempre lá!". Escusado será dizer que fiquei ainda mais motivada para seguir neste sentido. Afinal não era só eu, existem muitos outros filhos por aí que adoravam chegar ao conforto do lar e ter a sua mãe à espera. Sim, é verdade, os meus não serão diferentes e eu quero dar-lhes essas lembranças, essa segurança, esse carinho, cuidado e amor.

Claro que vocês podem questionar-se, por exemplo, sobre a parte financeira (o meu marido é professor, não é o milionário da zona, :). Sobre isso, tenho a dizer-vos que é apenas uma questão de prioridades e se para viver assim, cuidando deles, dos filhos e do marido, temos de abdicar de alguns luxos, não me importa, é a nossa escolha e estamos muito felizes com ela.  

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9 comentários:

  1. É como dizes, nalguns círculos sociais ainda existe vergonha em querer assumir que se quer ser mãe a tempo inteiro, pois algumas mulheres que se dizem seguras de si não querem "depender" de ninguém... penso que o problema está na distorção do significado do sentir Amor. Amor é isso mesmo, ser feliz com a simplicidade de ser Mãe, Pai, Filho (a), Primo (a), Amigo (a), e não há nada melhor do que chegar a casa e sentir o cheirinho da nossa mãe. Eu também não tinha a minha mãe em casa quando chegava da escola, mas tinha a minha avó, as minhas primas e um lanchinho acabado de fazer, brincávamos infinitamente mas ainda assim faltava algo. Chegar a casa e ela estar lá é tudo!

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  2. haha adorei esta parte "Brincava quase sempre de cientista, sim cientista (sempre gostei de ciências), mas não era isso que me motivava, utilizava quase sempre essa profissão porque todos os dias podia descobrir coisas novas e o meu chefe, contente com a minha prestação, mandava-me para casa todos os dias mais cedo para poder cuidar dos meus filhos :)"

    Mt mais "querido" que eu que quando tinha 6 anos queria era trabalhar no caixa de supermecado porque pensava que todo o dinheiro que ali entrava era para a funcionária (e porque gostava daquilo de passar a mercadoria pelo "apito") e que assim poderia comprar uma casa e viajar o mundo lolol

    Isto de ser mãe a tempo-inteiro ou não tem muito a ver com a personalidade de cada um, e mesmo um certo dom. Considero que existem muitas boas mães mas dessas boas mães contam-se pelos dedos as que realmente tem o dom verdadeiro para o ser, um dom natural e espontaneo, uma vontade de dedicar-se inteiramente aos filhos. Parece-me que para isso é preciso ter um dado gosto especial, uma determinada maneira de ser e de estar e de ver o mundo.

    Não que isso seja melhor ou pior, é simplesmente um dom como tantos por aí, e como tal um dom especial :) Digo já que eu não o tenho, mas também me considero boa mãe na medida daquilo que acho bem ou mal. Mas admiro quem o tenha e penso que, como a maioria de nós mães, estão a fazer o melhor que consideram de acordo com um numero vasto de variaveis e opçoes disponiveis.

    Um beijinho a todas as mães dedicadas a sua maneira (trabalhando fora de casa ou não!)


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    1. Ja agora, eu sempre gostei de ter a casa só para mim. Ninguem a perturbar, podia fazer o que quisesse. Filha unica, desde pequena ficava em casa sozinha, desde uns 7 anos, e apreciava! Bem que a minha mãe dizia para ir com a vizinha enquanto ela nao chegava, mas para quê? Eu era uma otima companhia para mim mesma hehe. Fazia minha taça de cereais, via o que queria na televisao, brincava quando e como queria, visitava os vizinhos se me apetecesse, convidava quem eu quisesse para dentro de casa, etc...Liberdade, gostava disso.

      Talvez por isso nunca me imaginei sendo mãe a "tempo inteiro", de fato essa ideia metia-me um medo terrivel hahaha Sempre quis ser mãe, mas uma mãe com seu trabalho, com suas coisas proprias para fazer que nao incluisse crianças. No entanto quando tive a Bella decidi que ficaria em casa até quando achasse propicio, ou seja, minimo de 1 ano. Devo dizer que não foi algo fácil para mim e que provavelmente nao aguentaria se nao tivesse com quem deixa-la algumas vezes para "respirar" (e nesse processo fiz alguns par times pq ia dando em louca em só pensar em rotina infantil!)...porque ao mesmo tempo que gostava (hoje em dia gosto mais) de ser mãe me sentia sufocada, foi muito dificil para uma pessoa como eu. Mas estou orgulhosa de ter conseguido e de ter tido momentos preciosos pois sei que foi o melhor para a minha pequenina :) Nao conseguiria fazer isso até a altura escolar, porém, e nem acho que seria o melhor para a Bella (ela adoraaaa a creche! e eu fico mt mais bem disposta podendo trabalhar, fazer as minhas coisas, e busca-la pelas 15h30 - 16h da tarde...assim passamos acima de tudo tmepo de qualidade e nao apenas tempo...e penso que é isso que importa :D ) .





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    2. Caixa de supermercado, só mesmo tu :) Agora deste-me vontade de rir. Adorei! É verdade o que dizes tem a ver com a personalidade de cada um e isso não significa que somos melhores ou piores, significa que, como tal noutros parâmetros da nossa vida, somos diferentes. Engraçado, gostavas de ser filha única, eu não, eu detestava, se calhar por não ter nem primos nem vizinhos próximos, sentia-me só, fazia realmente o que me apetecia mas sempre só, nunca gostei e por isso quis ter filhos próximos, era mesmo importante para mim.

      Tem momentos fantásticos isto de ser mãe a tempo inteiro e eu sempre o quis fazer, é verdade. Adoro estar com crianças e com outras famílias que tenham crianças, no entanto, também me sinto cansada e às vezes apetece-me afastar-me, sair, "respirar" como dizes, ter conversas de adultos, fazer outras coisas. O blog nasceu um bocado dessa necessidade, de conversar mesmo sem conversar, de desabafar, de estimular o cérebro com a escrita.

      Também, tal como tu, penso que o que importa, trabalhemos fora de casa ou não, são os momentos de qualidade, o tempo que lhes dedicamos realmente, até porque, tirando os casos patológicos, as mães fazem o melhor que podem e sabem pelos seus filhos :) Obrigada pelo comentário, adorei ler mesmo.

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    3. Eu por acaso sempre quis ter irmãos. Aliás, sempre pedi muito um irmão/irmã mas a minha mãe teve 4 e detestou e nao queria ter mais filhos, disse que eu era suficiente e que já tinha muitos "filhos" emprestados (é professora). Ela tb nunca teve muita paciencia, gosta demasiado da propria independência. Ela mesmo diz-me que deveria só ficar com uma que é mais do que bom! lol

      Mas tb nao me importava de ser filha unica. Sim, gostaria de ter tido irmaos (para as viagens seria mt melhor lol), mas tb gostava de brincar sozinha e estar sozinha.

      Eu como já te disse quero ter mais um :) Mas sei que provavelmente não lidaria bem com uma diferença pouca entre idades por isso, avaliando a minha personalidade, penso que o melhor é esperar a diferença minima de 3 anos. Acho que é isso, a minha mae tb fez o melhor que sabia e acho de louvar ela ter decidido ter só uma por ter a noção que não teria estrutura/cabeça/paciencia para mais...se fosse pelo meu pai eram 4 hahaha ele adora crianças, leva um jeitão! e tem uma paciencia que vai daqui à lua lol Se nao fosse ele estava bem lixada quando tive a Bella, ele q me ajudava nos dias negros de colicas pq meu marido estudava na hora critica!

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    4. Engraçado, cada um com os seus "traumas", uns porque não tiveram querem ter, outros porque tiveram não querem ter e bem, queiramos quer não, os nossos filhos serão os "traumatizados" do futuro. Façamos o que fizermos a pensar no bem deles, não sabemos bem que resultado vai ter:)

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  3. Concordo plenamente. Julgo que na minha geração existe muito o estigma de ter que ter uma carreira bem sucedida no mundo empresarial.. e parece que se apregoou que ser mãe era antagonista a esta ideia...
    Cheguei hoje a este blog e estou a adorar! Grata pelas partilhas!

    **rita

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    1. Obrigada pelo comentário! É verdade, na realidade fazem-nos acreditar muitas vezes que ter uma carreira é prioritário em relação a outros assuntos da nossa vida, tanto que cada vez mais a maternidade, embora naturalmente muito desejada para a maioria das mulheres, é deixada cada vez para mais tarde. Continue a acompanhar-nos e se tiver alguma sugestão diga :)

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