segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O foco no agora: memórias da infância


Não raras vezes digo ao meu marido para apreciar o momento, digo-lhe também que embora muitas vezes não tenhamos vontade de fazer algo como passear por vinte minutinhos ou ir à praia um bocadinho, devemos fazê-lo, se não por nós (embora por nós também faça todo o sentido), que seja por eles, pelas nossas crianças. Porquê? Bem, na verdade, as crianças pequenas vivem no agora, são simples sentem/vivem (e muito) o presente. Para elas o passado e o futuro simplesmente não existem e somos nós os adultos que complicamos as coisas. Como é possível que não percebamos que há momentos em que o que mais interessa é saltar para aquela poça de água tão apetitosa (à chuva e com uns meros sapatinhos e verão como ontem de manhã) e colocar as pequenas mãozinhas sob aquelas gotas de água que caem? É irresistível e até eu gosto de fazer isso, como é que eles vão resistir? E não me venham dizer que as poças de água não são irresistíveis.

Elas olham para nós e fazem-nos aquele sorrisinho húmido e só nos apetece pôr nem que seja um pezinho para nos rebelarmos um bocadinho. Mas eles, os pequenos, deixam-se se ir, não controlam aquela emoção e vão lá com a sua vida, com a sua energia toda, dão tudo o que têm naquele momento com os dois pés juntos no meio da poça e nessa pequena fração de segundo isso é tudo o que importa, é esse sentimento que conta. Salta água por todos os lados, molha tudo, faz uns barulhos engraçados e aquelas pequenas carinhas abrem uns grandes sorrisos como se contivessem toda a felicidade do mundo. E digo-vos uma coisa, se estiverem acompanhados, então é diversão a dobrar ou a triplicar, com danos colaterais equivalentes.

Porque é que elas se divertem tanto com umas meras poças de água ou escolhem precisamente aquele bocado de terra descoberta num imenso campo relvado, querem saber vocês? Porque os nossos pequenos frutos não se preocupam com o depois, com o ter de trocar a roupa ou mesmo eliminar aquelas nódoas rebeldes, esse é um incómodo nosso, não deles.

Voltando às conversas com o marido, simplesmente acredito que ações que, para nós, são rotineiras, a olho nu sem importância, para eles são as memórias especiais da infância das quais se irão recordar para sempre. Aqueles quinze minutos de conversa de café em que estávamos com pressa para ir embora enquanto os pequenos brincavam com alguma criança (não digo amiguinho de propósito, já que os amigos são pessoas mais significativas na nossa vida e não alguém que acabamos de conhecer), para eles foi intenso e provavelmente no final estarão a transpirar, felizes e com pouca vontade de ir embora.

Sei que existem muitas frases feitas sobre estas coisas da vida que não se vive (que todo o mundo partilha nas redes sociais mas ninguém segue). A maior parte de nós vive de alguma forma no passado (devido a mágoas, ressentimentos, sentimentos difíceis de ultrapassar subjacentes a situações complicadas que aconteceram) ou no futuro (com a preocupação constante do amanhã, a angústia da incerteza, o medo do que está por vir) esquecendo-se do momento presente. É importante quase que sair do corpo e olhar para nós (um espelho pode ajudar a começar :p), tomar consciência, compreender a irreversibilidade do tempo, aceitar, perdoar talvez. Quanto ao futuro, por mais que trabalhemos para ele, que façamos tudo com o máximo cálculo, a máxima perfeição, ele é incerto e ele pode sempre nos surpreender. Se é para acontecer, vai acontecer e não há nada (excetuando nos filmes e séries de TV) que nos permita sabê-lo antecipadamente.

Tal qual crianças despreocupadas, aproveitem o presente, ele é uma dádiva. É apenas no agora que podemos na verdade ter alguma influência na nossa vida (ok, não partam já para a ação, podem continuar a ler até ao fim). Nada de esquecer que é vital dar valor aos pequenos momentos que para vós podem representar felicidade, marcar um encontro com amigos, comer a comida preferida, passear o cão, brincar com os filhos, cozinhar, ouvir música, ler, o que quiserem. Não desejem um dia ser felizes, sejam-no simplesmente.

Agora uma mensagem especial, algo dirigido a pais, educadores e a todas as pessoas que todos os dias lidam com crianças. Em primeiro lugar criança também é gente e ninguém gosta de ser maltratado, envergonhado e desrespeitado seja por quem for, sê-lo pelas pessoas que cuidam de nós com a desculpa que se preocupam connosco, não faz disso uma boa ação. Em segundo lugar, sei que muitas vezes a rotina do dia a dia é pesada, mas lembrem-se que se vocês farão parte da memória de uma criança, façam com que essa seja uma memória feliz. Todos merecemos relembrar uma infância feliz. O que pode parecer não ter importância para um adulto cansado, para uma criança pode ser uma marca, bom ou mau, pode ser algo que se vai lembrar para sempre.

As crianças não são seres em stand by, na verdade, tal como a nossa, a vida deles já está a acontecer, a diferença meus amigos, é que eles aproveitam muito mais. Um dia feliz a todos!

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