segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Brilho, união, comida de conforto e amor: estamos a chegar à Festa!

Olho o horizonte, vasculho no baú das memórias e perco-me num mar de doces recordações. Lembro-me de traços de outros tempos pincelados com outros cheiros, presentes, mas, ao mesmo tempo, tão distantes. O suave calor do sol poente aquece-me a alma e traz até mim o quente conforto de um pãozinho, um brindeiro acabado de sair de um forno a lenha preparado especialmente para mim pela tia Evangelista. Invade-me as narinas um cheiro carinhoso e melado daquele bolo de mel quebrado com as mãos como manda a tradição e enche-me de carinho a lembrança dos dias em que decidíamos iluminar a casa com as cores e o brilho natalício. Recordo com saudade os vários adornos que foram trazendo luz ao nosso natal, presenciando tantos momentos cujas emoções não me cabem no peito. Inquieto-me ao lembrar-me daquela vez em que senti receio, um medo escondido cá dentro de que o Pai Natal não pudesse presentear-me, brindar-me nem que fosse com uma laranja fresquinha. Abraço com carinho aquele livro de capa azul grossa encontrado no sapatinho depois de chegar da missa do galo e juro que ainda ouço aquele som metálico de uma escada a encostar na parede da minha casa e de ter aquela expectativa: “Ele está mesmo ali ao lado e não se esqueceu de mim”.
Não apenas relembro, fecho os olhos e sinto, vejo, ouço e cheiro momentos, emoções, sabores e amor. Eu não sei vos contar exatamente o porquê, mas a noite de natal é diferente das outras, é especial e mesmo hoje, confesso-vos, ainda sinto aquela magia no ar.



O Natal da casa ao lado
Escrevo algumas linhas de texto, junto sílabas e mais sílabas, apago, reescrevo. Na minha cabeça está lá tudo aquilo que quero dizer. Ainda assim, repito este processo de reescrita vezes e vezes sem conta, durante alguns dias. O objetivo desta semana era escrever um texto sobre o nosso Natal e, quando penso nisso, emerge em mim um sentimento de amor intenso pelas lembranças reais e extraordinárias desta época que sempre passei em família. No entanto, a par dessas bonitas imagens surgem outras de uma realidade que não é a minha mas que me faz sentir no peito uma dor imensa que não posso ignorar, gente que está só, abandonada, gente descalça e com frio ansiando por um pouco de calor, gente numa guerra que não é sua, crianças que sabem que vão sentir vergonha quando tiverem de contar como foi o seu Natal na frente dos seus colegas, gente que vê o brilho das luzes na casa ao lado e sabe que na sua mal terá comida para comer, olhos marejados de lágrimas, de tristeza por um desrespeito constante. Perante isto, eu simplesmente não posso apenas dar-vos a imagem do nosso natal perfeito sem me referir a tantos outros que não o são. Eu não posso fechar os olhos e fazer de conta que nada se passa, eu não posso simplesmente passar aos meus filhos a ideia de que no Natal todos os meninos do mundo ficam felizes porque recebem muitas prendas. Eu não posso encher os meus filhos de múltiplos presentes apenas porque posso, isso parece-me egoísta. Eu não posso incentivar-lhes a escrever uma carta ao Pai Natal a pedir uma lista interminável de coisas de que eles não precisam, a este homem que é tão bondoso, mas se esquece de muitas crianças, que leva um saco enorme cheio de brinquedos, mas que os distribui de forma desigual. Se eles quiserem pedir presentes, se sentirem que necessitam de algo, peçam-nos a nós pais e nós veremos o que podemos fazer. Ao pai Natal? Se fizerem muita questão, escrevam uma carta a pedir prendas para as outras crianças cujos pais não podem oferecer ou então não o sobrecarreguem mais. Ele já tem muito trabalho pelo mundo fora.
Senti que não podia apenas escrever de forma leviana sobre o Natal, não de uma maneira mágica e perfeita sem ter em conta outras realidades e sem relembrar que existem milhões de pessoas para quem o Natal é apenas um dia a sobreviver como outro qualquer.



A festa do Natal, aquele conforto
Agora sim, podemos, por assim dizer, conversar sobre o nosso Natal. Engane-se quem pensa que o Natal é uma festa meramente de índole religiosa. Sim, não se admirem, a época natalícia representa a altura de nascimento do menino Jesus e, embora ninguém saiba exatamente o dia em que veio ao mundo, é uma desculpa tão boa como outra qualquer para celebrar e fazer uma grande Festa. Na verdade, a época natalícia, embora tenha um grande fundamento religioso, claro, ao longo do tempo foi adquirindo novas caraterísticas, novas tradições, coisas com as quais nos fomos identificando e às quais nos fomos apegando. Ainda não concordam comigo? Ora vejamos, grande parte das pessoas mesmo que não vá à missa durante o ano, vão no Natal, principalmente às missas dos parto e o mais interessante é que muitas nem chegam a passar do adro da igreja. Porquê? Porque é lá que se encontra a dita festa, os comes e bebes e os cânticos. Não é também por acaso que conheço tantas pessoas que juram não ter religião, mas aderem às comemorações de Natal. Provavelmente, grande parte de nós adora o Natal precisamente porque já dizia um professor meu “o povo quer é festa”. E não, não é pelas prendas, não creio que seja por isso, mas pelo convívio, pelas comidas, pelo brilho caraterístico e ostensivo na decoração própria da época e, sobretudo, pela tradição. O Natal nos atrai através das suas múltiplas facetas, é certo, não obstante, penso que a tradição é um dos aspetos com maior peso. Nós gostamos de determinados padrões na nossa vida, eles dão-nos certezas, trazem-nos segurança. Então, de certo modo, o natal é isso mesmo, é essa manta que nos conforta, é aquela mesa cheia de gente, é aquela comida de conforto, é aquela oportunidade, aquela desculpa para nos encontrarmos com amigos que não vemos há muito tempo, são aquelas referências que nos fazem sentir especiais e, sobretudo, seguros.



Quando mais é menos
Tradicionalmente, era no Natal que as famílias faziam um esforço extra para comer um pouco melhor do que no resto do ano. Era a altura da Festa e, portanto, de alguns luxos como comer carne, frutas, queijo ou doces. Aproveitavam então para reunir vários braços para fazer as broas, os bolos de mel, os licores e os pães que seriam consumidos durante esta época e guardavam algum dinheiro para as coisas que não produziam como a bola de queijo, por exemplo. Atualmente, ouço com frequência a frase “o Natal já não lembra nada” e reparo ao longo dos convívios que, não raramente, as pessoas estão fartas de doces, carnes e de outras receitas típicas natalícias uma vez que agora têm a possibilidade de as adquirir o ano inteiro. Resultado, o que antes era tão aguardado e saboreado com prazer, agora é comida de todos os dias.
Eu costumo dizer que em dias de festa nós abrimos um pouco o nosso leque de comidas para saborear, e fazemo-lo com gosto e sem culpas, todavia, não podemos nem queremos fazer festa todos os dias. Além de nada saudável, também cansa e se torna enjoativo.
Antigamente, a preparação para o Natal era feita em família e em casa, com os arranjos natalícios, a confeção da comida e isso era o que realmente lembrava o Natal. Atualmente, o que lembra esta época festiva é a dor de cabeça ao pensar no dinheiro que temos de gastar, os shoppings a abarrotar de gente e de atividades para as crianças, além de que grande parte das pessoas já não faz os bolos, as broas, os licores ou mesmo a ceia de Natal em casa, compra-os já feitos. Não está errado, não me interpretem mal, apenas é diferente e nós, cá por casa, realmente gostamos de sentir e manter a tradição.
A Festa, chamemos-lhe assim a bom madeirense, já não é sobre pequenos luxos na alimentação e, muitas vezes, já não se foca na família. As pessoas, mesmo ligadas por laços de sangue, estão cada vez mais desconectadas umas das outras, têm menos empatia, é cada um por si. Os luxos agora são maiores e tentam compensar carências que, a meu ver, são mais afetivas que materiais. Nos nossos dias, o Natal é sobre saldos, é o Natal dos shoppings, das promoções. Compramos uma e outra vez e nem pensamos muito nisso, não dá tempo de pensar, pois ou compramos nesse dia ou perdemos o desconto. Estamos cegos e nem conseguimos ver que os preços subiram para nos dar aquela falsa oportunidade e apenas nos sentimos felizes porque conseguimos apanhar a promoção.
Contudo, reduzir o Natal ao consumo é destruir a sua essência, é perder a beleza de tudo o resto. Natal também é espiritualidade, não apenas relacionada com a religião católica, mas sim com valores que são transversais a qualquer religião, que deveriam dizer respeito qualquer ser vivo. O amor, a amizade, a família, a empatia, o respeito, a solidariedade e a união representam tudo aquilo que nos leva a querer ser pessoas melhores e não deveriam estar presentes apenas nesta época, mas sim todo o ano.



Beijos, abraços e muito amor: O nosso Natal
Mesa farta, farta de comida mas especialmente de gente. De gente que está presente, de gente que importa p’rá gente. Para nós, Natal é estar junto, junto da família, daquela que nos deram e daquela que se escolhe e se acolhe no nosso coração.
Cá em casa, a época natalícia começa no final de novembro quando fazemos o nosso Calendário do Advento. O calendário que construímos em família tem o objetivo de organizar o nosso Natal e fazer-nos passar mais tempo juntos, é a nossa preparação para o Natal. Dentro de cada uma das casinhas alusivas aos dias do Advento, coloco uma atividade para fazermos juntos, como por exemplo, confecionar broas ou pão, passear, visitar um amigo, ir à noite do mercado, entre muitas outras.
Em dezembro, logo na primeira semana começamos a elaborar pequenos enfeites que farão parte da nossa decoração e, na segunda, além de fazer pequenos arranjos florais, decoramos a casa, incluindo nesta atividade muita música de Natal e acessórios a combinar (chapéus de Pai Natal, entenda-se). Neste ano, o pinheiro tem uma decoração muito simples e é um sortudo porque atrai muita atenção dos mais novos e já teve a oportunidade de ser redecorado várias vezes. Acabei por colocar os enfeites numa caixinha por baixo do pinheiro, assim eles têm a oportunidade de dinamizar um pouco a decoração quando quiserem.
Mais perto do dia de Natal, damos asas aos nossos dotes culinários e à nossa imaginação na cozinha, fazemos os bolos de laranja, mel e frutas secas, algumas variedades de broas e diferentes tipos de pão, porém, não gostamos de estar sós, convidamos família e amigos para virem partilhar estes momentos connosco. Além de um convívio agradável, é uma ajuda preciosa.  Nesta altura, fazemos ainda postais simples que vão acompanhar pequenas lembranças personalizadas que ofereceremos aos amigos.  Normalmente são pequenos miminhos elaborados por nós a pensar nos amigos, e podem consistir em chocolatinhos, pãezinhos, biscoitos ou sabões.
Na verdade, mesmo numa ilha pequena como a nossa, há muitas tradições relacionadas com o Natal. Há quem celebre o dia em si, há quem se foque mais na consoada, há quem abra os presentes à meia noite, há quem só os abra no dia 25 de manhã. Nós fazemos como sempre fizemos e, assim sendo, damos mais ênfase à consoada. No dia 24 de dezembro à tarde recebemos cá em casa família e amigos que numas vezes vêm para ficar, noutras só para nos cumprimentar e dizer que não se esqueceram de nós. Para quem fica, há os petiscos que foram preparados para este dia e os jogos à mesa, o que significa muito barulho e muita diversão. Depois, alguns vão à missa do galo, outros dar um passeio e outros ficam a dormir ou a jogar. Há atividades para todos os gostos. 
O jantar em si é especial, é preparado em dose dupla (para ficar para o dia 25, nesse dia não queremos nada com as tarefas da cozinha) e sim, nesses dois dias acabamos por consumir muitos doces e muita gordura. É engraçado ouvirmos a cada ano afirmações como este ano não quero comer muito e também ver receitas e conselhos de alimentação saudável para o Natal, evitando os doces e gordura. Pois, caros amigos, o problema da alimentação desregrada não são os dias festivos, mas sim os restantes dias do ano. Por isso, cá em casa aproveitamos esta época do ano para cometer os tais excessos que nos dão tanto prazer. Ainda assim, admito, não conseguimos voltar a comer como comíamos antes de termos mais cuidado com a alimentação e, por isso fazemos diferentes adaptações consoante os nossos gostos. Utilizamos mel em vez de açúcar, dispensamos os laticínios e as farinhas com glúten.



Já perto da meia noite sentamo-nos ao pé da árvore de natal e os membros mais novos da família “leem” e distribuem as prendas. São prendas quase que simbólicas, engraçadas e, sobretudo, necessárias que podem ir de meias a rolos de papel higiénico, a frutas ou ferramentas para utilizar no terreno, entre outras, nada de muito extravagante, portanto.
Após tudo isso e antes de ir para a caminha ainda há tempo para sentar à mesa mais uma vez e saborear uma canjinha ou uma sopinha de miso (o miso é uma pasta fermentada bastante utilizada na gastronomia asiática) quentinha e conversar mais um bocadinho ou quiçá mais uma partida renhida de um jogo de cartas ou de tabuleiro. O dia 25 é dia de mantas, filmes e comidinha do dia anterior.

Caros leitores, neste Natal, ponderem as vossas escolhas, menos às vezes é mais. Conectem-se aos outros, à família, aos amigos, através de uma conversa, de um abraço. Olhem para o lado, para o Natal do outro e, se puderem, ajudem de alguma forma. Vivam esta magia e façam deste, um natal com mais sentido, com mais amor. O Natal não é apenas das crianças, é de todos nós. Uma Festa muito feliz para vocês!


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